Fluxo de caixa: o que é, como analisar e por que é importante?

Se você já investe ou pretende investir, o fluxo de caixa é uma das demonstrações financeiras mais importantes que existe na hora de analisar uma empresa, portanto, é essencial que você entenda.

O que é fluxo de caixa?

A Demonstração do Fluxo de Caixa (DFC), vai mostrar os recebimentos e pagamentos efetuados por uma determinada empresa. Portanto, ela irá indicar o que ocorreu no período em termos de entrada e saída de dinheiro do caixa, indicando origem e destino dos recursos. Ela diz muito sobre a gestão da empresa.

DRE (Demonstração de Resultado do Exercício) X DFC (Demonstração do Fluxo de Caixa)

Não confunda caixa com lucro, ok? Lucro é apurado na Demonstração de Resultado do Exercício (DRE).

“Ah, então se o lucro é dado na DRE, eu vou analisar só ela, porque aí eu verifico se a empresa está dando lucro ou não”

Não faça isso! Vou te explicar o motivo pelo qual esse pensamento está errado e pode te induzir ao erro.

A DRE é apurada no regime de competência. Isso significa que, se você, por exemplo, realizou uma venda na data de hoje no valor de R$ 15 mil, é esse valor que entrará na DRE, não importando a forma de pagamento acordada.

Vamos imaginar, também, que para produzir essa mercadoria você teve que comprar matéria prima que te custou R$ 10 mil. É esse valor que entrará na DRE, não importando como será a forma de pagamento para o seu fornecedor.

Vou fazer uma análise muito simplista, sem incluir as muitas outras variáveis que possui uma DRE, considerando apenas a receita e o fornecedor que dei de exemplo para calcular lucro ou prejuízo.

Bom, se você vendeu R$ 15 mil e teve que adquirir matéria prima por R$ 10 mil, significa que você teve R$ 5 mil de lucro, certo? Reforço: essa é uma análise muito simplista, apenas para fins didáticos.

Ok, você teve R$ 5 mil de lucro, MAS veja bem: eu disse lá em cima que na DRE é registrado o valor total, não importando como foi acordada a forma de pagamento, então vamos imaginar que você irá receber os R$ 15 mil daqui 40 dias. Já no caso da matéria prima, terá de pagar o fornecedor daqui 20 dias.

O que acontecerá aí? Haverá um descasamento de prazos, portanto o seu lucro não se converterá em caixa. Daqui 20 dias você terá que desembolsar R$ 10 mil para pagar matéria prima de uma mercadoria que você só vai receber daqui 60 dias.

Entendeu como o lucro não significa “dinheiro no bolso”? Por isso o fluxo de caixa diz muito sobre a gestão. O gestor responsável tem de manejar todos os ciclos financeiros da empresa para que o lucro operacional (que vem da DRE) tenha alta conversão em caixa (DFC).

Ah, e o contrário é verdadeiro. A empresa pode apresentar prejuízo (DRE), mas ter um caixa positivo (DFC), conseguindo se sustentar no médio prazo, mas esse cenário também não é bom.

Qual o cenário ideal? Converter lucro operacional em caixa. Quanto maior essa conversão, melhor.

Lucro operacional tem relação com o negócio dela, exemplo: empresa de aquecedor solar. Então o lucro que estamos considerando é o que vem da operação dela, que é vender equipamento solar.

Fluxo de caixa direto X indireto

Há dois tipos de fluxo de caixa: fluxo de caixa direto e indireto.

O método direto funciona como se fosse uma conta corrente. Se você entrar na sua conta corrente, você verá o que entrou e o que saiu da conta, correto? Os valores estarão classificados como crédito ou débito. Então, vai funcionar mais ou menos dessa forma. Você parte do valor inicial do caixa, e depois o que entrar, você anota; o que sair, você anota também.

Já o método indireto funciona um pouco diferente. Inclusive as Demonstrações do Fluxo de Caixa que as empresas divulgam para o mercado são pelo método indireto. Essa metodologia também é utilizada para fins de valuation, etc.

O método indireto não vai evidenciar diretamente as entradas e saídas de caixa. Aqui, ele evidencia as alterações no giro da empresa que podem aumentar ou diminuir o seu caixa, sem apresentar diretamente as saídas e entradas de recursos.

A conta será feita por variações das contas do Balanço Patrimonial (BP). Então, acontecerá da seguinte forma: ele partirá do lucro líquido, dado pela Demonstração de Resultado do Exercício, depois o lucro líquido será somado à depreciação e amortização (porque elas não saem efetivamente do caixa), e então os valores do fluxo de caixa serão dados pela variação das contas do Balanço Patrimonial (BP).

Resumindo: a DFC pelo método direto parte do saldo de caixa inicial, e os valores são registrados conforme entradas e saídas efetivas do caixa; já a DFC pelo método indireto parte do lucro líquido ajustado, a partir dos dados da DRE, e as entradas e saídas são registradas conforme variação das contas do BP.

Categorias do fluxo de caixa

A fim de permitir uma análise mais detalhada da empresa, o fluxo de caixa (seja direto ou indireto), é dividido em três categorias:

Fluxo de Caixa Operacional (FCO): são as entradas e saídas de caixa relacionadas com a operação, inerentes ao negócio. Então, por exemplo, aqui se relacionam os pagamentos de fornecedores, aluguel, estoques, colaboradores, contas a receber, etc.

Fluxo de Caixa de Investimentos (FCI): são entradas e saídas de caixa relacionadas aos investimentos ou desinvestimentos feitos pela empresa. Um exemplo bastante recorrente é compra e venda de ativos imobilizados, bem como aplicações financeiras, que podem também tirar ou colocar dinheiro no caixa.

Fluxo de Caixa de Financiamentos (FCF): são entradas e saídas de caixa relacionadas às atividades de financiamentos realizadas pela empresa. Exemplo: pagamento de dividendos, aporte ou redução de capital, recebimento ou pagamento de empréstimos financeiros.

Exemplificação do método indireto

Para que você entenda melhor como funciona o método indireto, darei um exemplo simples a fim de que consiga fixar o conceito. Quando você entende o conceito, fica mais fácil interpretar dados mais complexos.

Antes, preciso que você entenda uma regra básica da contabilidade aplicada ao método de fluxo de caixa indireto. Vamos lá!

Você já sabe que para aplicar a metodologia indireta, você terá de observar a variação das contas do balanço patrimonial. No Balanço Patrimonial, nós temos o ativo e passivo, e é nessas duas contas (ativo e passivo) que vamos encontrar a variação.

Atenção para a regra:

Ativo

  • Toda vez que subir o saldo de uma conta de ativo, vai significar uma saída de caixa;
  • Toda vez que diminuir o saldo de uma conta de ativo, vai significar uma entrada de caixa.

Passivo

  • Toda vez que subir o saldo de uma conta de passivo, vai significar entrada de caixa;
  • Toda vez que diminuir o saldo de uma conta do passivo, vai significar uma saída de caixa.

Agora, observe esse BP e DRE simplificados para que em seguida possamos calcular o fluxo de caixa indireto, seguido de uma análise.

 

Balanço Patrimonial
Ativo
Ano 1
Ano 2
Passivo
Ano 1
Ano 2
Caixa
R$ 500
R$ 200
Fornecedores
R$ 700
R$ 900
Dup. Receber
R$ 1.000
R$ 1.400
Empréstimos
R$ 1.200
R$ 1.500
Estoques
R$ 500
R$ 1.100
Salários
R$ 400
R$ 450
Outros
R$ 200
R$ 50
Impostos
R$ 150
R$ 300
Ativo Circulante
R$ 2.200
R$ 2.750
Passivo Circulante
R$ 2.450
R$ 3.150
Ativo Permanente
R$ 5.000
R$ 5.500
Patr. Líquido
R$ 4.050
R$ 4.300
Depreciação
(R$ 700)
(R$ 800)
 
 
 
Total do Ativo
R$ 6.500
R$ 7.450
Total do Passivo
R$ 6.500
R$ 7.450
DRE
 
Ano 1
Ano 2
Receita de vendas
R$ 3.000
R$ 4.000
(-) Custo
(R$ 1.500)
(R$ 3.000)
Lucro Bruto
R$ 1.500
R$ 1.000
(-) Despesas Operacionais
(R$ 1.500)
(R$ 900)
Lucro Operacional (ou LAJIR, ou EBIT)
0
R$ 100

Para montar a DFC, você precisa lembrar que:

  • Primeiro, partimos do lucro operacional localizado na DRE;
  • Segundo, somamos a depreciação e amortização (buscar no BP); e
  • Terceiro, aplicamos a regrinha básica de variação sobre as contas.

Obs: para a depreciação/amortização, vamos buscar ela no BP e considerar a variação, mas sempre vai entrar na DFC positivo, porque não sai do caixa, ok?

Agora observe a DFC estruturada. Tente colocar em prática o que foi ensinado até agora para que você consiga entender como ela foi montada.

FCO
 
EBIT (Lucro Operacional)
R$ 100
+ Depreciação/Amortização
R$ 100
EBITDA (Lucro Operacional + Depreciação/Amortização
R$ 200
Contas a Receber
(R$ 400)
Estoque
(R$ 600)
Outros
R$ 150
Fornecedores
R$ 200
Salários
R$ 50
Impostos
R$ 150
Total FCO
(R$ 250)
FCI
 
Ativo Permanente
(R$ 500)
Total FCI
(R$ 500)
FCF
 
Empréstimos
R$ 300
Total FCF
R$ 300

A conclusão que podemos tirar com essas demonstrações é a seguinte:

A empresa gerou um lucro operacional (DRE) de R$ 100, mas ao analisar o FCO (que também diz respeito à operação da empresa), notamos que o saldo ficou em R$ 250 negativo, o que significa que a empresa não teve geração de caixa operacional efetivo, ou seja, ela destruiu caixa. Portanto, de nada adianta ter lucro, se isso não se converte em “dinheiro no bolso”.

Agora, um resumo da DFC, considerando FCO, FCI e FCF, ficaria assim:

FCO                 (R$ 250)

FCI                   (R$ 500)

FCF                  R$ 300

------------------------------------------------

Variação total      (R$ 450)

Considerando todas as categorias, podemos notar que, mais uma vez, a empresa destruiu caixa.

É muito importante fazer essa separação de categorias, porque você precisa enxergar o resultado de cada uma delas. Imagine, por exemplo, que o FCO continuasse negativo, mas o FCI e FCF fossem positivos: a nossa variação total seria positiva.

“Ah, e o que isso tem a ver?”

Veja, é a operação que tem que manter o negócio. Imagine que o FCO fique negativo de forma recorrente, isso significa que a empresa não está conseguindo gerar caixa com a operação dela, que é o mais importante, então isso se torna muito perigoso.

E sabe o que a empresa pode pensar em fazer?

“Eu, empresa, já que não estou conseguindo gerar receita com minha operação, vou começar a vender alguns carros que tenho, alguns maquinários, etc”

Então não se engane com um resultado isolado. Interprete cada categoria. Resultado tem de vir, primeiramente, do negócio dela, e não de ativos que não têm relação com a operação.

Conclusão

A DFC é uma das demonstrações mais importantes, portanto, antes de decidir por investir em uma empresa, considere ela como uma grande aliada.

É claro que você não deve se basear somente nela para tomar uma decisão, mas o fato é: não deixe, nunquinha, de incluí-la nas suas análises.

As empresas listadas em bolsa divulgam seus resultados pelo método indireto.

Dica: entre no site de RI (Relação com Investidores) de alguma empresa (só digitar RI e o nome da empresa em seguida) e busque pelas demonstrações.

Como você já aprendeu o conceito, ficará bem mais fácil de interpretar as informações.

Eu espero muito que eu tenha conseguido te ajudar a entender o que é a DFC, como analisar e sua importância.


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